O
Jogador e o Pastor
Christian J. F. Winandy
| O jogador levava
uma vida desregrada, ia de bar em
prostíbulo e caía na bebida e no
carteado até altas madrugadas, charuto
cubano no bico, litrão ao alcance da
mão e ases nas mangas, prá garantir,
já que vivia disso. Um dia, lá pelas
tantas, pintou um pastor no boteco onde
estava rolando um bate-coxas num canto e
no outro, aquele pôker da hora. Sabe
aquele pastor chato, que não contente em
disseminar a boa palavra ainda insiste em
criticar o modus-vivendi dos
outros ? Pois é, Bíblia na mão, dedo
em riste que o garçom até se confundiu
e trouxe uma gelada, o Pastor desatou a
fazer um sermão sobre os malefícios do
sexo, álcool e jogatina, enfim, desceu o
cacete, sobrou prá todo mundo.....Alguns
freqüentadores, cujas próprias
ratazanas de sacristia eram chegadas ao
Pastor, puseram a mão na consciência e
saíram de fininho, mas o jogador ficou
mordido... perdeu a concentração e
quase queima o filme jogando uma quina de
ases comprometedora sobre a mesa.
Entraram no bate-boca e prá encurtar a
estória, o jogador desafiou o Pastor
para um duelo.....Opa
! Aí a coisa ficou interessante,
apareceram padrinhos e testemunhas para
os dois, alguns achando que venceria a
Justiça Divina, muitos apostando na
malícia do jogador; sendo que o Pastor
ficou cotado como azarão, a 25 para 1 no
banco de apostas.....Marcaram
para o alvorecer de depois de amanhã,
pois o dia já estava clareando e nem o
melhor pistoleiro do mundo vai querer
jogar sua vida em um só tiro estando em
jejum, de ressaca e com sono. Além do
que, o Pastor tinha um culto inadiável
nesse dia. Fecha o cenário do boteco e
abre outro; um campo relvado próximo a
um bosque, seis horas da matina, frio,
neblina se arrastando ao rés do chão...
O Pastor como desafiado, foi o primeiro a
escolher a pistola, como manda a etiqueta
sobre duelos, o jogador desafiante ficou
com a outra. Costas
à costas, cada um deu seus dez passos (o
que somado dá vinte, como já dizia o
Leonardo) sob os olhares atentos dos
padrinhos e testemunhas e viraram-se um
para o outro... Os crentes fizeram o
sinal da Cruz, os descrentes um sinal de
positivo anglo-saxão (aquela rosca
invertida)... Dois tiros ecoaram, quase
simultâneos. Os dois caíram de
costas... e puseram-se em pé, para
espanto geral. Ambos tinham um furo na
roupa, ainda fumegante, bem à altura do
coração, mas nada de sangue... em seus
bolsos, apenas uma bíblia e um baralho,
cada qual com uma bala encravada. |
....A
Bela e a Fera
Christian J. F. Winandy
.O
cara casou com aquela mulher maravilhosa
! Linda, culta e gostosa, a mais linda
flor de seu jardim, como costumava
gabar-se... Trabalhou duro para que nada
lhe faltasse, fez serão e até horas
extras, deu-lhe carrão da hora que ela
usava para desfilar às compras ou ante
as amigas, roupas de grife, jóias caras
e uma bonita morada. Contratou uma
empregada para que não se cansasse ou
estragasse suas delicadas mãos de fada
nos afazeres domésticos, celular, TV a
cabo, cão importado e cartão de
crédito (alô patrocinadores, que tal um
merchandising disso tudo ?).....E
assim foi levando a vida, feliz feito
monge em banquete... O homem era um
primor, levantava de manhã cedinho e
fazia o café prá não tirar a linda
esposa de seu sono de beleza, trabalhava
até tarde prá ganhar mais dindin e
aumentar o padrão de vida dela, chegava
tarde e mal conversavam pois ela tinha
por hábito recolher-se cedo alegando uma
tradicional porém persistente enxaqueca,
enfim, viam-se apenas aos finais de
semana quando sua bela não tinha algum
compromisso com o clube das madames
fofoqueiras ou com as ratazanas de
sacristia do bairro. Passou, nestes
momentos de ócio a freqüentar um
botequim onde bebia, às vezes além da
conta. Chegava em casa para encontrar a
mulher injuriada, que de início de cara
fechada passou a recriminá-lo com o
apoio inclusive da megera da sogra.....Infeliz,
passou a beber depois do trampo, e cada
vez mais sua bela ia metamorfoseando-se
em fera (não tente pronunciar isso,
mesmo em jejum), batendo boca, quebrando
louça e sumindo por dias a fio. A danada
passou a rodear o boteco, e vira e mexe
rodava a baiana dando aquele vexame
diante dos amigos. Não deu outra, o cara
acabou enrabichando-se por uma mulher
não tão bonita, não tão jovem e nem
tão boa, mas que não ligava muito para
suas escapadinhas ocasionais,
contentando-se em ficar na vida boa (a
outra não precisa cozinhar, lavar e
passar, nem agüentar o bafo de onça do
marido bêbado) e gastar parte da grana
que seria da bela em troca de um jantar
à luz de velas e uma rapidinha vez em
quando.....Deu
no que tinha de dar, separação,
desquite, perdeu metade das coisas que
havia juntado prá fera, além da pensão
que se não pagar o juiz põe você no
xilindró junto com os malacos
profissionais. Com a grana minguando, a
outra foi ficando uma fera, por vezes
mais exigente que a oficial e acabou se
mandando com o Ricardão, deixando nosso
herói a ver navio e avião.
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