O
chapéu
Christian J. F. Winandy
O vendedor chegou
de sua "tournée" pelo
interior, e foi direto à tesouraria para
acertar suas despesas de viagem e receber
suas comissões. O tesoureiro foi ticando
e somando: despesas de locomoção,
despesas com alimentação, despesas com
hospedagem, despesas com telégrapho
(pois assim se passavam os pedidos na
época) e, olhou duas vezes para o
último item da lista: um chapéu. Pegou
um lápis vermelho bem grosso e glosou o
chapéu. "Isso não está
relacionado com as despesas normais do
departamento de vendas. A firma não vai
reembolsá-lo." O vendedor
foi-se sem argumentar, mas certo de seu
direito de andar coberto ao fazer seu
trabalho, de porta em porta sob sol
escaldante ou chuva fria, voltou a
colocar o chapéu em sua prestação de
contas do mês seguinte. O tesoureiro
não deixou por menos. "Mais uma
vez esse maldito chapéu ? Eu já lhe
disse que a firma nada tem a ver com esse
tipo de despesa !" e riscou o
famigerado item com tanta raiva que quase
rasgou a folha.
....Passou-se
mais um mês e lá veio nosso vendedor
com sua prestação de contas. O
tesoureiro, sabendo de sua obstinação,
tanto para vendas como para cobranças,
foi direto à procura do chapéu e,
surpresa, não o encontrou. "Ah
!" exclamou ele em português
pois era a única língua que falava,
"até que enfim, você resolveu
sumir com o raio do chapéu !"
O vendedor contou seu dinheiro,
embolsou-o e colocando o chapéu sobre
sua cabeça retrucou, apontando para os
papéis espalhados sobre a mesa: "O
chapéu está aí. Quero ver o senhor
encontrá-lo." e saiu. |
...A
Lebre e o Cágado
Christian J. F. Winandy
Reza a fábula que,
a lebre tendo desafiado o cágado para
uma corrida, este acabou vencendo-a
porque fez seu caminho devagar e sem
parar, enquanto a lebre parou várias
vezes, cochilou e acabou perdendo. A
célere lebre foi lerda e o lento cágado
foi constante. O que ninguém ficou
sabendo é que a lebre e o cágado
casaram-se e viveram infelizes para
sempre. Estava
a lebre para parir, naquele desespero,
sem saber o que fazer, gemendo "Santa
Casa não, Santa Casa não...",
mandou o cágado, que estava refestelado
no sofá da sala assistindo televisão e
saboreando sua cerveja predileta, buscar
a parteira. "Corre, seu inútil,
me traga a parteira que eu vou dar à luz
aqui mesmo !", gritou ela entre
duas dolorosas contrações. Lá se foi o
cágado, resmungando mil imprecações
contra sua megera de lebre... Passou um
tempo e nada, mais meia hora e nada, a
lebre cada vez mais desesperada... "Esse
desgraçado está demorando, aposto que
parou no boteco prá tomar uma !" O
cágado, que tinha acabado de chegar ao
portão, levantou a cabeça, esticou o
pescoço o quanto pôde sem conseguir dar
sumiço nas rugas e disse:
"Se começar a implicar, eu não
vou !" |
Mata
sete
Christian J. F. Winandy
Um alfaiate, no
tempo em que a profissão ainda não
estava em extinção, estava costurando,
incomodado com as moscas que
borboleteavam ao seu redor (alguns
puristas vão alegar que moscas não
borboleteiam, mas em literatura o
trapezista não pode ter medo de
trabalhar sem rede). Com uma batida
exasperada em sua mesa de trabalho, matou
sete moscas de um só tapa e afixou
orgulhosamente uma placa à porta de sua
oficina com os dizeres: Mata sete. O Rei,
no tempo em que a coroa ainda era boa,
mandou buscá-lo manu militari (hoje a PM
diz condução coercitiva) e desafiou-o a
matar dois gigantes, um dragão, um touro
bravo, uma onça e duas pingas de
garrafão prá tomar coragem. Em troca
daria sua filha, a Princesa Cunegunda,
que era feia de cara mas boa pessoa em
casamento ao alfaiate. A Rainha, que só
serve prá botar filhos de sangue azul e
geleia real na cabeça ao mundo, não
simpatizou com o futuro genro que não
tinha berço nem posses, ficou no veneno
e resolveu embaçar o casamento dos dois.
Não foi preciso, pois confrontado com a
feiura da Cunegunda, que apesar de boa
pessoa era mais parecida com um dragão e
tão formosa e cheirosa quanto uma
privada turca de rodoviária ao término
de véspera de feriadão (essa um dia
constará das pérolas do conto
brasileiro), saltou de banda, fez as
malas e picou a mula.
....Hoje
vive em um reino afastado, onde é
conhecido por Mata sete por ser essa a
quantidade de maldições de alambique
que ele costuma matar antes de cair.
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