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As lendas que o povo conta...
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A mala
Christian J. F. Winandy

Sexta-feira, final do expediente... o cara resolveu dar aquela escapulidinha com os amigos do escritório, tomar um chopinho, trocar piadas sujas e esticar um olho na direção das menininhas aqui e ali... só olhar e fantasiar pois sempre fora fiel. Além disso, é sabido, exceto pelas esposas, que quem sai com os amigos à noite prá tomar umas, dificilmente consegue engatilhar uma aventura, principalmente com os colegas de trampo por perto... é só pressão. Ah, ia me esquecendo do contexto; esse conto é do tempo em que mulher na rua após as 22 horas, ou estava acompanhada ou era mariposa mesmo. Começou a via-crucis, primeira estação, boteco do seu João, cervejinha gelada, coxinha vencida, quebra-gelo... segunda estação, padaria da tia, tome cerveja, torresminho pura gordura, mais quebra-gelo, e assim foram, madrugada adentro, fechando um boteco aqui, uma padaria ali, até que terminaram na zona (que na época ainda era apenas casa de conveniência para alguns, de tolerância para outros), onde comeram e beberam de tudo e torraram uma nota preta.....Às cinco e pouco da manhã, bêbado feito uma vaca (não sei quem inventou essa expressão, pois se conheço vacas loucas, jamais as vi bêbadas), descabelado, gravata no bolso feito língua de fora, cheirando à La nhaca boêmia, cuja fórmula é mistura de suor, perfume barato, fumo resfriado, bebida azeda, salgado gaseificado e outros componentes secretos, o cara bateu o olho no relógio do estabelecimento, que como qualquer relógio de zona é sincero como um vendedor de televisores usados e vive mais atrasado que busão em dia de greve geral, e desesperou-se... "Meu Deus ! ", exclamou naquele local não apropriado para o linguajar, "Minha mulher vai me matar ! e agora, com que desculpa vou chegar em casa ? ". Um dos amigos, macaco velho traquejado por anos de gandaia isentos de efeitos colaterais, pegou o giz da mesa de bilhar (toda zona tem uma, que é pro cliente descansar nos intervalos sem largar o taco e manter as bolas em movimento), esfarelou um cubinho azul que esfregou nas mão e na roupa do colega, empoleirou um giz branco em sua orelha direita e deu-lhe o seguinte conselho: "Vai lá e conta toda a verdade prá ela. Não se preocupe, vai dar tudo certo, confie em mim ! ". Chegou em casa lá pelas sete, sentindo o cheirinho gostoso de café que escapava pelos vãos da porta, conseguiu localizar a fechadura que não parava de rodopiar, abriu a porta e pimba ! Deu de cara com a mala na entrada e com a mulher, gigantesca (nessa hora qualguer baixinha fica gigante, já notaram ?), braços cruzados, pézinho marcando o compasso, bufando... "Isso é hora de chegar em casa seu vagabundo ? Por onde andou, desgraçado ? " Já com o rabinho entre as pernas (onde mais vocês acham que ia ficar o rabinho hein ?) e a cabeça baixa, o homem reagiu, estufou o peito e disse: "Estive na zona, traçando cada quenga mais linda que a outra, que você não chega nem aos pés ! " A mulher desatou a chorar, olhando para os restos de giz azul e branco... "Ainda por cima é mentiroso, pensa que eu não tô vendo que você passou a noite toda jogando bilhar e bebendo com seus amigos ? ", e foi trancar-se no quarto, desconsolada. O marido sorriu, empurrou a mala para o lado com o pé e nunca mais deixou de sair à noite, levando em seus bolsos onde quer fosse, giz. Ah sim, ele não deixou de amá-la e os dois viveram felizes para sempre.

....A merda
Christian J. F. Winandy

O Pássaro voava naquela manhã fria... Tão fria que ele foi ficando durinho, enregelado a ponto de não conseguir mais mover as asinhas, caindo ao chão. Passou uma vaca e cagou em cima dele, cobrindo-o quase completamente. Aquela merda quentinha foi reanimando o pássaro que feliz, começou a cantar. Isso chamou a atenção de um gato, que limpou cuidadosamente o estrume da vaca e comeu o pássaro.

Moral da estória:

Nem sempre quem caga em sua cabeça é seu inimigo;
Nem sempre quem te tira da merda é seu amigo;
Estando feliz ou na merda, fique de bico calado.

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